Até ao Congresso, não se vai dar pelos socialistas. O “segurismo” ainda não ligou os motores
Nomes? Tema tabu. Ninguém sabe. Ou, se julga saber, não arrisca. Um mês depois da eleição interna que fechou o ciclo do ‘socratismo’, os homens com quem António José Seguro vai liderar o PS permanecem desconhecidos. Os próprios não saberão que têm um papel (e qual) no “novo ciclo” que o secretário-geral socialista só admite inaugurar oficialmente com a realização do congresso, no segundo fim-de-semana de Setembro. E Seguro recusa alimentar a impaciência: “Nesta fase não vou falar em nomes”, reitera.
Certo é que, no seu discurso de vitória, o líder socialista prometeu “novos protagonistas”, ao mesmo tempo que reafirmou a intenção de “abrir o partido à sociedade”. “O congresso de Setembro já terá novidades quanto a esse propósito”, afirmou.
Quem conhece o modo de funcionamento do novo líder socialista sabe que “ele gosta de ouvir opiniões muito diferentes e depois tirar as suas conclusões”. Habitualmente, em cada uma das principais áreas de governação, ouve várias pessoas. E não se atém aos militantes. “Muitos nem estão na política activa; são empresários, universitários, cientistas, banqueiros, gente da cultura, jovens, trabalhadores e desempregados.”
Com o ‘segurismo’ ainda sem motores ligados, o PS vai seguindo viagem em ponto morto. O verão é complacente com o standby que os socialistas se autos impuseram ao marcar o congresso para sete semanas depois da eleição do secretário-geral. A pacatez da actualidade política nacional (a que ajudou o encerramento, nestas duas semanas, da Assembleia da República) só foi interrompida ocasionalmente. E, nestas ocasiões, coube ao grupo parlamentar suprir a ausência de uma orientação vinda do Largo do Rato: Fernando Medina e João Galamba têm sido assíduos nas respostas à política económica e financeira do Governo; Mota Andrade, vice-presidente da bancada parlamentar, foi quem surgiu a comentar o discurso de Pedro Passos Coelho no Pontal; Ana Paula Vitorino, antiga secretária de Estado dos Transportes, falou sobre a possibilidade de o Governo desistir do TGV; Miguel Laranjeiro, deputado por Braga, comentou a redução da taxa de desemprego no segundo trimestre do ano.
Uma espécie de ‘piquete’ informal, definido caso a caso, que vai continuar em funções até que do congresso saiam os nomes da Comissão Política Nacional (de onde sairá o secretariado) e, logo depois, a indicação de quem vai suceder a Maria de Belém na direcção da bancada parlamentar.
“Congresso não será um comício”
O congresso, já se sabe, vai decorrer em Braga (distrito por onde Seguro foi cabeça de lista) entre 9 e n de Setembro e, segundo o presidente da comissão organizadora, Joaquim Raposo, disse ao Expresso, vai apresentar uma imagem renovada do PS. O mote é â “confiança”, o tema é “Portugal”. Raposo não quis adiantar muito mais (até porque as últimas decisões só serão tomadas na próxima semana), mas sempre foi dizendo que o congresso “não será nem faustoso, nem elaborado, mas terá dignidade”. O último congresso de Sócrates, em Matosinhos, em vésperas da campanha eleitoral, encerrado sem uma única bandeira do PS, só com bandeiras nacionais, não serve de referência: “Este não se pretende que seja um congresso-comício”, garante o presidente da COC.
CRISTINA FIGUEIRED0
cfigueiredo@expresso.impresa.pt
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Nomes pelo Seguro
OPERACIONAIS
António Galamba
É o braço-direito de António José Seguro desde os tempos da Juventude Socialista, um daqueles casos em que já não é fácil distinguir onde acaba a política e começa a amizade.
Foi deputado, o último governador civil de Lisboa, e é apontado como o mais que provável futuro secretário nacional para a organização do PS, lugar-chave na estrutura partidária que já pertenceu, entre outros, a Jorge Coelho e ao próprio Seguro.
Jorge Seguro
Foi deputado por Castelo Branco até à última legislatura, mas, desta vez, a perda de votos do PS no distrito não lhe assegurou a eleição. E primo direito do secretário-geral, um companheiro constante desde a infância, o que lhe dá um ascendente sobre o agora líder socialista que ele tem sabido gerir com discrição. Diz querer deixar a política activa. Mas é certo que António José não vai desperdiçar o capital Seguro de um profundo conhecedor do partido.
Miguel Laranjeiro
Foi assessor de imprensa de António Guterres e foi nestas funções que iniciou uma relação com Seguro que os anos (e o facto de ambos serem deputados pelo distrito de Braga desde 2005) só viriam a estreitar. Nesta campanha interna para a liderança, teve um dos papéis principais ao coordenar a comunicação da candidatura e ao assumir as funções de porta-voz. Tem lugar por direito próprio no núcleo duro do Largo do Rato.
João Ribeiro
Com 35 anos acabados de fazer, este licenciado em Direito a fazer um, doutoramento em Sociologia é um dos novos (e dos mais novos) protagonistas do PS de Seguro. Em tempos, candidato à liderança da JS, fez uma pós-graduação em Macau e ocupa funções no Ministério da Justiça. Tem o seu blogue onde escreve sobre a esquerda em geral e o PS em particular. Não aprecia que lhe chamem “o ideólogo” do segurismo, mas que tem sido importante... tem.
PONTOS DE APOIO
Jorge Coelho
O homem forte do guterrismo, a quem sucedeu na organização do PS, é uma das vozes a que continua a dar mais ouvidos, apesar de estar fora da política. Foi ele que o persuadiu a não avançar para a liderança em 2004, mas também foi ele um dos que mais lhe alimentou a ambição desde então.
Mota Andrade
O presidente da Federação de Bragança, vice-presidente do grupo parlamentar, foi um dos primeiros dirigentes socialistas a declarar-lhe apoio público. Tem sido um esteio importante numa bancada que não é exactamente segurista’.
Pedro Nuno Santos
O responsável pela Distrital de Aveiro, também ele um ex-líder da Juventude Socialista, surge como um dos rostos da nova geração” que, no prognóstico de Mário Soares, irá trazer o socialismo de volta ao PS. Tem sido uma presença constante no núcleo mais próximo do secretário-geral.
José Luís Carneiro
Um trunfo roubado ao adversário. Antigo chefe de gabinete de Francisco Assis, acabou por votar no amigo Seguro. E um nome forte para suceder a Renato Sampaio na liderança do PS/Porto, cenário que, a confirmar-se, só lhe vai reforçar a importância neste “novo ciclo”.
Carlos Zorrinho
Foi, com António Serrano, dos primeiros ainda governantes de Sócrates a apoiar a candidatura de Seguro à liderança. Ex-secretário de Estado da Energia e Inovação, rosto do Plano Tecnológico, há quem aposte que pode muito bem ser o próximo líder parlamentar.
REFERÊNCIAS
Mário Soares
Continua a ser alguém que Seguro ouve com regularidade, assumindo que, como político, não dispensa a sua opinião, a sua “atenta e lúcida leitura” da realidade. Mário Soares, diz o secretário-geral do PS, “é a personificação da liberdade”. O fundador do PS, por sua vez, não regateia elogios ao homem que agora ocupa o lugar que um dia foi o seu. Aceitou apresentar-lhe o livro “Compromissos para o Futuro”, em plena campanha eleitoral para a liderança do PS (apesar de não ter tomado partido por nenhum dos candidatos), para o qualificar como pessoa de “grande coragem, inteligência e sabedoria”.
António Guterres
Conheceram-se pessoalmente no congresso em que Seguro foi eleito líder da Juventude Socialista e, até hoje, não perderam contacto, apesar de a proximidade se ter naturalmente esbatido com o facto de Guterres estar a maior parte do tempo no estrangeiro. ‘Aprendi muito com ele”, afirmou Seguro na entrevista que deu ao Expresso em Maio de 2010. Reconhecendo no agora alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados ‘uma pessoa excepcional” e em quem se revê em muitos aspectos: “No seu bom senso dialogante, no respeito pelos outros, na sua sensibilidade social.”
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