Demorou a aceitar dar a entrevista. Mas acabou por marcar o dia e a hora, em inícios de Maio de 2010. O mote daquele número da revista Única era ‘Espera’ mas ele, confessaria já depois da publicação, percebera ‘Esperança’. Não fosse o equívoco e, provavelmente, ainda não tinha sido aquela a ocasião em que o ouviríamos dizer, pela primeira vez: ‘Se houver um momento em que eu considere útil dar o meu contributo ao PS e ao país, assumirei as minhas responsabilidades”.
Não queria, acima de tudo, alimentar a ideia de que estava na sombra, “à espera” de vez para se candidatar à liderança do PS, consciente embora de que era o anúncio dessa disponibilidade o que se ‘esperava’ dele naquela entrevista. A hipótese chegara a passar-lhe pela cabeça em 2004. Mas desistira quando percebeu, e percebeu rapidamente, que não dispunha nem de capacidade própria nem de apoios suficientes para avançar. “Quando se colocam decisões destas há que ver se temos cinco pessoas dispostas a morrer por nós”, explica com pragmatismo um dos seus amigos mais próximos. Ele não tinha.
Nos sete anos seguintes (e se o calendário político não tivesse sido encurtado seriam pelo menos mais dois) levou a cabo um discreto mas intenso trabalho de aproximação aos militantes.
Que colheu: desde o passado sábado, António José Martins Seguro, 49 anos, é, sem surpresa para quem acompanha as vicissitudes socialistas, o sétimo secretário-geral do PS, sucedendo a José Sócrates, Ferro Rodrigues, António Guterres, Jorge Sampaio, Vítor Constâncio e Mário Soares.
Um percurso expectável para quem é “calculista”, na perspectiva crítica de uns, “determinado”, preferem qualificar outros. Como o director do “Jornal do Fundão”, Fernando Paulouro, que o conheceu quando ele era ainda adolescente e assegura: “Nunca vi um jovem com tanta determinação em ter um destino político”. Ou como o seu conterrâneo Porfírio Saraiva, actual líder do PS de Penamacor, que assinou a sua ficha de adesão ao partido, em 1980, e se orgulha de lhe ter descoberto o potencial, não teria ele mais do que 14 anos: “Montava uma banca na rua, em frente à papelaria do pai, para vender jornais e revistas do MRPP”.
A relação com Sócrates
Talvez persistente seja o adjectivo mais adequado. Jorge Seguro Sanches, seu primo direito e companheiro de sempre das andanças políticas, garante não estar a exagerar quando recorda que, por ocasião das autárquicas de 1982, Tó Zé foi “pelo menos umas 40 vezes” à aldeia vizinha de Águas, tentar convencer um independente ilustre que lá vivia a candidatar-se pelo PS à câmara municipal. A insistência de nada lhe valeu - o homem não se deixou persuadir -, mas a verdade é que os socialistas recuperaram a autarquia que tinham perdido nas eleições anteriores. O jovem Seguro teve o seu quinhão de responsabilidade pelo resultado.
Como co-responsável seria, três anos mais tarde, pela eleição de José Sócrates para presidente da Federação de Castelo Branco. Corria o ano de 1985 e o engenheiro da Covilhã disputava a liderança distrital ao albicastrense Martins Pires. Entre o primeiro, que lhes oferecia mais lugares nas listas, e o segundo, com quem tinham acabado de se travar de razões sobre os candidatos a deputados do distrito na Assembleia da República, os socialistas de Penamacor não hesitaram: graças à meia dúzia de votos desta concelhia, Sócrates ganhou a federação.
Não foi por isso que o assim líder do PS de Castelo Branco, futuro secretário-geral e primeiro-ministro, se sentiu alguma vez em dívida para com António José Seguro. Apesar da afinidade regional, nunca foram próximos, e o sentimento comum de profunda admiração e amizade por outro homem com raízes na Beira Interior, António Guterres, terá mesmo sido a chave da ignição de uma rivalidade surda, mas crescente, entre os dois delfins - que culmina nestas eleições internas, com Sócrates, nos bastidores, a fazer tudo para que fosse Francisco Assis a suceder-lhe na liderança do PS.
As diferenças de personalidade entre os dois são notórias: Sócrates é o primeiro a reconhecer que tem “um feitio pouco dado ao compromisso”; Seguro é, por natureza, “um conciliador”. Sócrates assume ter pouca disponibilidade para ouvir, revela irascibilidade quando o contrariam; Seguro “ouve demais”, para exaspero dos que gostariam de o ver, uma vez por outra, tomar decisões de uma forma mais instintiva, menos ponderada.
Às vezes, confessa, confessa um dos seus colaboradores mais próximos, “o melhor é fazer as coisas e só depois dar-Lhe conhecimento”.
Falso arranque
No início de 2004, quando António Costa sai da liderança do grupo parlamentar para ir para o Parlamento Europeu, o então secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, convida Seguro para o lugar. Num primeiro momento este ainda hesita, mas Sócrates também ambiciona o posto. E o empurrão de que Seguro precisa para se decidir a avançar. Poucos meses depois, Ferro deixa a liderança do partido, abrindo caminho à eleição de Sócrates. Seguro dá por si a imaginar-se, porque não? no Largo do Rato. Chega a reunir-se com as parcas tropas num almoço na Cúria onde Jorge Coelho, e outros, lhe confirmam o óbvio: ainda não chegou a hora.
O falso arranque não é um inédito na sua biografia. Era para ter sido eleito secretário-geral da Juventude Socialista em 1989, acabou por só o ser um ano depois. A jota, após um início fulgurante com Arons de Carvalho e José Leitão, atravessa um mau momento: não tem dinheiro, tão-pouco importância política. Em São Pedro de Alcântara, em Lisboa, um grupo onde pontificam Seguro, Ascenso Simões, Francisco Assis, entre outros, discute a necessidade de substituir José Apolinário na liderança da organização. Assis não quer perder tempo, quer que Seguro avance já. Mas este prefere esperar, articular agendas com o líder cessante. O Congresso é adiado.
Os seus companheiros à época - muitos dos quais continuam ao seu lado - garantem que é ele, com a sua capacidade de liderança e de organização e os seus métodos de trabalho, que refunda a JS, a profissionaliza, a toma relevante interna e externamente. Os jovens socialistas são o principal suporte da campanha eleitoral para as legislativas de 1991 (não evitando, ainda assim, que Jorge Sampaio perca para Cavaco Silva, eleito pela segunda vez com maioria absoluta); animam os comícios com uma grande mancha de bandeiras amarelas (que se mantêm em uso); distribuem preservativos numa campanha contra a sida que tira o Patriarcado do sério; acorrentam-se à porta da embaixada da Holanda (em protesto contra os interesses holandeses no mar de Timor); manifestam-se (com T-shirts com inscrições provocatórias) frente ao pavilhão da Indonésia na Expo Sevilha de 1992.
Perceber o essencial
“Era preciso muita criatividade”, lembra António Galamba, o seu chefe de gabinete, sempre presente na sua vida (pessoal e política) desde o primeiro secretariado de Seguro na JS, recordando os anos em que calcorreavam o país “em condições quase infra-humanas”, dormindo dentro do carro (porque não havia verba para hotéis) nas áreas de serviço. “Nunca nos habituámos a fazer política na facilidade”, afirma, admitindo que essa até “é uma vantagem no contexto actual”.
O social-democrata Carlos Coelho, outro dos seus maiores amigos (e padrinho de casamento) desde o tempo em que ambos participaram no Conselho Nacional de Juventude, reporta-se a essa época para lhe sublinhar a “sensibilidade para as diferenças”, que fez dele o principal responsável por conseguir sentar à mesma mesa as organizações jovens da CGTP e da UGT - antes mesmo de a Intersindical aceitar participar na concertação social dos graúdos. “Em todos os lugares por onde passou percebe o que é essencial”, acrescenta Coelho.
Metido na política da cabeça aos pés - exceptuando um curto período de meses em que concilia a liderança da JS com um lugar como gestor da associação que gere a escola de circo Chapitô, Tó Zé acaba por facilmente deixar o curso de Gestão de Empresas para trás. O facto de não ser doutor só haveria de o perturbar anos mais tarde quando, secretário de Estado primeiro, ministro depois, percebe o preconceito que ainda existe contra quem, não sendo licenciado, cumpre funções públicas. Há-de vir a licenciar-se (em Relações Internacionais). Casa, já aos 40, tem filhos (dois, uma rapariga e um rapaz). Com a chegada de Sócrates à liderança do partido, renuncia ao lugar de líder parlamentar, passa para as filas de trás da política, dedica-se à carreira académica (dá aulas de Ciência Política, inicia um mestrado com uma tese sobre a autonomia dos deputados), apostado em contrariar a ideia de que é um carreirista da política, um produto das escolas das juventudes partidárias sem vida própria para lá dos corredores do poder.
Amigo chegado de Miguel Relvas, o braço-direito de Passos Coelho, não esconde a irritação quando lhe sublinham as afinidades com o agora primeiro-ministro. Luís Represas, um amigo comum aos dois desde os tempos de noitadas de copos e conversa no Happening e no Xafarix, só vê proximidade num aspecto: “Fazem ambos parte de uma geração muito mais dialogante e pragmática, que quer ver os problemas resolvidos, mas sem perder tempo em debates estéreis”.
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