Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Seguro ‘Há mais vida para lá do memorando”


É o favorito claro nas eleições internas. Consigo a líder, o Governo pode contar com o PS para as medidas da troika. Quanto ao resto a vigilância será total.



Diz que “o PS tem de mudar, e muito”. E um corte radical com o passado?

Não. O PS tem de mudar, e muito, nas suas práticas, nos métodos de trabalho, na forma de organização e de comunicação - quero dar mais voz aos militantes e abrir o partido à sociedade. E tem de mudar ao nível da proposta política: inflexível nos valores mas com resposta aos novos problemas.



Os métodos não funcionaram ou são os tempos que exigem novos métodos?

As duas coisas. Ao longo das últimas décadas, os órgãos nacionais muitas vezes ratificaram mais as decisões do que as debateram. O PS, no essencial, continua com a estrutura do pós-25 de Abril.



Alegre desafia o próximo líder a aca bar com o culto do chefe. Foi a isso que se assistiu nos últimos anos?

Não estou com os olhos postos no passado. Quero que o PS seja um partido moderno, à altura dos novos tempos, que valorize os militantes, pois só assim é que se consegue atrair novos contributos. Gosto muito de ouvir antes de decidir, isso enriquece a decisão. Para sermos unidos na acção temos de ser plurais no debate.



Diz que para os portugueses voltarem a acreditar nos políticos, a primeira com dição é “ser frontal e transparente com as pessoas”. Foi um dos erros do governo socialista?

Nenhuma governação do PS está isenta desses erros. Devemos aprender com eles. Mas o passado não o pode corrigir. Mais do que estar à procura de diferenças, quero afirmar-me como sou. Não me interessa onde as pessoas estiveram no dia 4 de junho.



Como é que um projecto de mudança recolhe apoio tão maciço do aparelho?

Não gosto dessa palavra. Em cada estrutura do PS há homens e mulheres que dão o seu melhor, gente muito capaz e de muita inteligência. Esta é uma candidatura que não nasceu num corredor do poder em Lisboa, negociada entre meia dúzia de pessoas. Nasceu por vontade própria, das bases para o topo. Não quero ser um líder de facção.



Ao “falhanço da globalização económica de inspiração liberal”, corresponde a perda de poder dos socialistas europeus. Corno se resolve o paradoxo?

E uma discussão que tem de ser feita no interior da família socialista europeia. E deve ser em simultâneo com o debate que quero introduzir no PS. A UE está dominada por uma visão muito liberal e conservadora. É um engano e a Europa vai definhar. A Europa tem instrumen tos de política monetária e cambial, mas não tem verdadeiros instrumentos de política económica. Não tem sentido que seja Merkel a falar e a Europa a obedecer. A Europa precisa de instituições e lideranças capazes de avivar o projeto de solidariedade que foi fundador da UE.



Mas como, se, a cada dia, perdem influência? A seguir prevê-se que sejam o PSOE e o PASOK a perder eleições...

A receita da austeridade como solução para resolver o problema da consolidação das contas públicas e nenhum estímulo ao crescimento económico, vai ter mau resultado! Precisamos de a contrariar e isso só com um forte investimento nos sectores produtivos que acrescentem crescimento económico.



Em Portugal as propostas liberais aca baram sufragadas pelos eleitores.

Não estou a dizer o contrário. O que quero é que em 2015 os portugueses tenham duas propostas por onde escolher. Temos de levar esperança e confiança às pessoas e não vejo, a começar no programa do Governo, que esta maioria (de matriz liberal e conservadora) seja a resposta para os problemas.



A margem é estreitíssima. O PS assinou o compromisso com a troika.

Queremos ser uma oposição responsável, assumindo os compromissos, designadamente os do memorando, mas há caminhos que fazem a diferença. E tenho uma grande disponibilidade para, em questões estruturantes, podermos convergir. Exemplo: o combate à corrupção. Assim como a transparência na gestão dos dinheiros públicos.



Assis fala explicitamente de alianças autárquicas à esquerda. O senhor não.

O diálogo interpartidário deve existir, à esquerda e à direita. Nunca tivemos nenhum complexo dessa natureza. Mas neste momento, mais importante é a afirmação da autonomia do PS.



A força da autonomia também lhe virá do relacionamento com o Governo. Voltámos à quadratura do círculo…

Sim, mas gostava de esclarecer uma coisa: nós não governamos, nem somos reféns da política do governo. Uma coisa é o memorando, outra o espaço político de um partido de oposição. Há mais vida para lá do memorando da troika.



As pessoas não têm certeza disso.

Eu percebo. As medidas são tão fortes, e adensadas com medidas que não estavam no memorando, que é natural que as pessoas se questionem. Mas cabe à oposição encontrar espaços que permitam marcar a diferença. Era o que mais faltava que não tivesse possibilidade de definir a estratégia eleitoral do PS.



Criou-se a ideia de que entre si e Passos será difícil estabelecer a diferença.

Os percursos são diferentes. É verdade que fomos líderes das juventudes, há essa coincidência, mas é a única.



Quando Passos foi eleito no PSD você interrogou-se se à mudança geracional iria corresponder a alteração da forma de fazer política. Já tem resposta?

O exemplo dá-me uma resposta negativa. Na campanha, Passos prometeu que não aumentaria os impostos. Foi a primeira coisa que fez no Governo. Prosseguiu a linha política dos governos anteriores. Eu faço política de forma diferente. É necessário honrar as promessas eleitorais



Há contexto para retomar a revisão constitucional? O PS reapresenta o projecto que entregou no início deste ano?

Essa deve ser a base. O PSD não conta é com os nossos votos para o projecto do verão passado, nomeadamente nas áreas laboral e social.



E contra as eleições primárias para escolha de candidatos abertas a não militantes que Assis propõe. Porquê?

Sou favorável à realização de primárias, mas entre os militantes. Caso contrário não haveria nenhuma razão para as pessoas aderirem ao PS! Isso mataria o debate político no interior do PS.



Se for eleito, qual o papel que destina a Francisco Assis?

Neste momento o importante é dar razões aos militantes para me elegerem. Depois das eleições naturalmente que Francisco Assis tem um lugar por direito próprio no PS. Não dispensarei o contributo de nenhum militante, em particular o dele.




António José Martins Seguro

49 Anos

Licenciado em Relações Internacionais

Frequência de Mestrado em Ciência Política

Foi líder da JS  entre 1990 e 1994

Foi ministro adjunto de António Guterres

Durante dois anos foi eurodeputado do Partido Socialista  liderou a bancada parlamentar socialista. Nos anos de José Sócrates, fez uma travessia do deserto, mantendo-se como deputado à Assembleia da República



Expresso, 9 de julho de 2011

0 comentários: