O sucessor de Sócrates terá em mãos um exercício muito difícil, admitem senadores socialistas ouvidos pelo Expresso
É uma missão quase impossível a que aguarda António José Seguro ou Francisco Assis — os dois candidatos em disputa no processo eleitoral interno que decorre entre ontem e hoje.
Derrotado nas urnas; amarrado a um compromisso com a troika que lhe deixa pouca margem de manobra; atrofiado por sete anos de uma liderança afunilada na figura do secretário-geral; integrado numa família europeia em perda de influência eleitoral. Este é o esboço a traço grosso do Partido Socialista que o sucessor de José Sócrates vai ter de levantar do chão, se quiser conservar-lhe o estatuto de alternativa de poder.
O Expresso desafiou seis destacados socialistas a redigirem um breve caderno de encargos para o homem que os vai chefiar doravante. Se o conseguirá cumprir... logo se vê.
Apesar da troika, “o PS tem espaço político para se afirmar”, acredita Augusto Santos Silva.
O ex-ministro da Defesa de Sócrates, e um dos principais ideólogos da direcção partidária cessante, tem uma receita “simples e totalmente clara” para o PS dos próximos tempos: “compromisso com a consolidação orçamental; defesa da função social do Estado, contra o projecto do actual Governo, no que ele visa o seu enfraquecimento; ênfase nas bandeiras políticas que têm conhecimento, internacionalização da economia, foco nas energias renováveis, simplificação e modernização administrativa”.
António Vitorino, subscritor de uma “carta aberta ao secretário-geral” divulgada esta semana, prefere pôr ênfase na necessidade de o PS não se deixar cair na tentação de “uma deriva esquerdizante como tantas vezes acontece nos partidos socialistas e sociais-democratas quando perdem eleições”. Responsável pelos programas eleitorais de 2005 e 2009, Vitorino sublinha que a principal tarefa do novo líder será “unir o partido e reafirmar o sentido de responsabilidade de Estado do PS que advém não apenas do acordo subscrito com a troika, mas também da necessidade de assegurar a alternância democrática’.
É preciso coragem
Uma posição nos antípodas da de Manuel Alegre, que defende precisamente que o próximo líder do PS “se liberte do neo-rotativismo” que tem dominado a política portuguesa. “A prioridade é saber ser oposição”, pede o histórico socialista. O PS, defende, tem de “voltar à raiz, à social-democracia. Não há nada por inventar”. Ainda que a margem de manobra seja estreita, acredita que o PS saberá ver que “o memorando não é a Bíblia, mas um ultimato imposto pelos mercados financeiros a que importa resistir”, isso implica, reconhece, “a coragem dc não ser politicamente correto”.
Manuel Maria Carrilho também pressente a “grande coragem de discussão política” que vai ser exigida ao próximo secretário-geral socialista. O professor de Filosofia espera que o sucessor de Sócrates saiba conquistar “margem de manobra face à herança envenenada, que não é só o memorando”. Isso obriga a rejeitar a ideia da “neutralidade tecnocrática da aplicação do me morando”: o PS terá de avaliar cada medida “caso a caso”. E a “ganhar espaço de manobra no plano ideológico e doutrinário”. Desde sempre uma voz crítica do PS de Sócrates, Carrilho considera importante lembrar que “o socialismo moderno não foi mais do que um momento de deslumbramento tecnológico e financeiro”.
Ferro Rodrigues reconhece que o próximo líder socialista terá em mãos “um exercício muito difícil”. Atribui-lhe, para já, três desafios: “unir o partido”, depois de um combate que “deixa sempre marcas”; “criar uma dinâmica de abertura do PS”; “criar uma dinâmica de alternativa programática e política, consistente com o período de turbulência na Europa e na esquerda que atravessamos”. Reconhece o “grande dilema” de respeitar o compromisso com a troika ao mesmo tempo que tem de “impedir que o Governo desequilibre os fundamentos do Estado Social”. Mas o caminho não pode ser outro: “O PS deve dar um sinal de responsabilidade mas ser oposição construtiva e afirmativa”.
Também para Ana Gomes” PS deve estar claramente na oposição”, exigir o cumprimento do entendimento com a troika mas recusar que isso sirva a aprofundamento de “uma dinâmica neoliberal”. Convicta de que Portugal não sairá da cris só com medidas de austeridade pede ao próximo líder socialista que se empenhe na defesa de “uma política de investimento no crescimento e no emprego”. E também que rompa “com a percepção de que o PS é complacente com a corrupção”.
Não é difícil adivinhar, como vaticina António Vitorino, que “o PS tem pela frente quatro anos de muito trabalho, seja qual for o líder escolhido”.
CRISTINA FIGUEIREDO
Refundação, não obrigado
O PS “tem de ser refundado de alguma maneira, tem de ser melhorado, tem de discutir política a sério e tem de ter política a sério” e grandes ideias para o futuro” propôs Mário Soares, há cerca de um mês. Reconhecendo legitimidade ao fundador do partido para alvitrar a sua ‘refundação”, António Vitorino, Augusto Santos Silva, Ana Gomes, Manuel Maria Carrilho, Ferro Rodrigues e Manuel Alegre preferem, no entanto, outras palavras para dizerem mais ou menos o mesmo.
Afirma Vitorino: “Não gosto do termo. Na política há sempre continuidade e ruptura, e o PS terá que se adaptar às novas condições políticas nacionais, sem descartar uma apreciação crítica do que correu mal na recente experiência governativa”. Também a Santos Silva a expressão parece “excessiva; renovação, isso sim, certamente. E sempre em interlocução com a sua base eleitoral e o conjunto das forças sociais que estruturam a sociedade portuguesa”.
Pensamento idêntico partilha Ana Gomes:
“Não quero ir tão longe. É preciso, sim, um reposicionamento e uma atitude de reforma interna”, diz a eurodeputada, assinalando que “estes últimos anos foram constrangedores para o PS”. Carrilho explica porque, embora concorde com a urgência de uma “agenda refundacional”, evita “esse tipo de palavras”, que se arriscam sempre a ficar pela retórica.
Ferro sorri à menção do termo: “O mundo mudou muito nos últimos anos. Há um divórcio cada vez maior entre a população e os políticos e todos os partidos têm de tirar lições disso. Se isso é refundação ou não...”. E Alegre constata: “o ps já foi fundado. No meu entender refundação implica uma ruptura com os últimos anos, voltar à raíz”.
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